Escravos do Mundo Livre

Esteta ou Asceta? Nada disso, no fundo: Divagações de um pateta...

sábado, 27 de dezembro de 2008

O tempo

"Aristóteles dedicou profundas análises ao conceito de tempo, que antecipam alguns conceitos que Sto. Agostinho desenvolverá e tornará célebres.
Eis o ponto focal da doutrina aristotélica do tempo:

'Que este [o tempo] não exista absolutamente ou que a sua existência seja obscura e dificilmente controlável, poder-se-ia suspeitar pelo que segue. Uma parte dele foi e não é mais, uma parte está para ser e não é ainda. E de tais partes se compõem, seja o tempo na sua infinidade, seja aquele que gradualmente é assumido por nós. E parece impossível que este, compondo-se de não-entes, possua uma essência. Além disso, é necessário que, se existe um todo divisível em partes, no momento em que ele existe, existam também ou todas as partes ou algumas delas. Do tempo, porém, algumas partes existiram, outras ainda existirão, mas nenhuma existe, embora ele seja divisível em partes. Tenha-se ainda presente que o instante não é uma parte: de fato, a parte tem uma medida, e o todo deve resultar composto de partes, enquanto o tempo não parece ser um conjunto de instantes.'

Que é, então, o tempo? Aristóteles tenta resolver o mistério em função de dois pontos de referência: o movimento e a alma: se prescindimos desta ou daquela, a natureza do tempo nos escapa.
Contudo, o tempo não é movimento e mudança, mas implica essencialmente movimento e mudança:

'A existência do tempo [...] não é [...] possível sem a da mudança; quando, de fato, não mudamos nada dentro da nossa alma e não percebemos qualquer mudança, parece-nos que o tempo absolutamente não passou. '

E dado que o tempo implica tão estreitamente o movimento, pode ser considerado uma afecção ou propriedade dele. E que pro priedade? O movimento, que é sempre movimento através de um espaço contínuo, é, também ele, por conseqüência, contínuo. Contínuo deverá ser o tempo, porque a quantidade de tempo transcorrida é sempre proporcional ao movimento. E no contínuo distinguem-se o antes e o depois, que, conseqüentemente, têm um correlativo no movimento e, portanto, no tempo:

'Quando determinamos o movimento mediante a distinção do antes e do depois, conhecemos também o tempo, e então dizemos que o tempo cumpre o seu percurso, quando remos percepção do antes e do depois do movimento. '

E eis a célebre definição do tempo:

'Tempo é a medida do movimento segundo o antes e o depois. '

Ora, a percepção do antes e do depois, e, portanto, da medida do movimento, necessariamente supõe a alma:

'Quando [...] pensamos as extremidades como diferentes do meio e a alma sugere-nos que os instantes são dois, o antes e o depois, então nós dizemos que há entre esses dois instantes um tempo, já que o tempo parece ser o que é determinado pelo instante: e isso fique como fundamento. '

Mas se a alma é o princípio espiritual que mede e a condição da distinção do numerador e do número, então a alma torna-se conditio sine qua non do próprio tempo, e compreende-se bem a aporia que Aristóteles levanta nessa passagem de incomensurável importância histórica:

'Poder-se-ia [...] duvidar da existência do tempo, sem a existência da alma. De fato, se n se admite a existência do numerante, é também impos sível a do numerável, de modo que, obviamente, nem o número existirá. Número, com efeito, é ou o que foi numerado ou o numerável. Mas se é verdade que, na natureza das coisas, só a alma ou o intelecto que está na alma têm a capacidade de numerar, torna-se impossível a existência do tempo sem a da alma [...].' "


Mais um excerto da História da Filosofia Antiga!

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