Escravos do Mundo Livre

Esteta ou Asceta? Nada disso, no fundo: Divagações de um pateta...

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

O velhaco do Platão

Vivemos coagidos pela lei do desejo. Esse impulso manda e desmanda, ao sabor das estações. O apelo aos prazeres, a sedução do poder (seja ele qual for) e dos bens materiais é constante. É forte o desejo de conquistar e possuir tudo: de coisas a pessoas.
Daí pra canalhice, pra desconsiderar os tão dessemelhantes semelhantes e se portar de uma maneira injusta, vil e afastada de um Bem, que não sabemos bem qual é, é um pulo. Os exemplos das pessoas “bem sucedidas” estão aí pra reafirmar os valores da esperteza e de como se passar por cima de tudo e todos.
Mas por que chover no molhado assim, pergunta você, já impaciente? Bem, eu respondo calmamente, o egoísmo como o guia mais alto de nossas vidas tem me causado profundo desconforto. Sem contar os inúmeros conflitos dele advindos, que me atormentam. Valores temos, é certo. Mas será que estamos satisfeitos com eles? Foi respondendo negativamente a essa pergunta que me vi desamparado: pra quem apelar?
Triste e só. Buscando o efêmero consolo do álcool, do sexo e da arte, percebi que nada disso dura como princípio último e regulador de nossas pobres vidas. São prazeres sensíveis e como tudo que é sensível, é corruptível, mortal. Devemos então buscar algo não sensível e, por conseguinte não corruptível. E eis que foi no barbudo Platão que encontrei uma idéia que muito me agradou e agora a compartilho no vazio da rede.

Uma introdução tão fraquinha só pra transcrever esse belo trecho de Giovanni Reale elucidando a ética de Platão que tanto me encantou. Agora o coloco aqui pra ver se comove mais alguém.

No Górgias, pela primeira vez, Platão afronta todos os problemas fundamentais relativos à vida do homem, que se lhe apresenta dramaticamente, como em nenhum dos escritos precedentes, em todas as suas mais gritantes e trágicas contradições: Sócrates, o justo, foi morto e, ao contrário, o injusto parece triunfar; o virtuoso e justo está à mercê do injusto e sofre todas as suas agressões; o vicioso e o injusto parecem, ao contrário, felizes e satisfeitos com as suas prepotências; o político justo sucumbe, o político sem escrúpulos se impõe; o bem é que deveria triunfar e, ao contrário, é o mal que parece prevalecer. De que lado está a verdade? Cálicles, um dos protagonistas do diálogo, que exprime as tendências mais extremistas amadurecidas naquela época (como vimos, falando dos epígonos dos sofistas), não hesita em proclamar, com a mais deslavada impudência, que a verdade está do lado do mais forte, isto é, daquele que sabe zombar de tudo e de todos, gozar de todos os prazeres, satisfazer a todas as paixões, saciar todo desejo, buscar todos os meios que servem a seus fins; a justiça é uma invenção dos fracos, a virtude uma estultície, a temperança um absurdo; quem se abstém dos prazeres, é moderado e governa suas paixões é um estulto, porque a vida que ele vive é, em realidade, igual a uma morte.
É justamente em resposta a essa visão extrema que Platão, avançando além de Sócrates, reencontra a verdade do ensinamento órfico-pitagórico. Cálicles e todos aqueles (pseudo-sofistas e homens políticos do tempo) dos quais Cálicles é símbolo dizem que a vida do virtuoso, que mortifica os instintos, é vida sem sentido e, portanto, morte. Mas, que é a vida? E que é a morte? Essa que chamamos vida não poderia acaso ser morte e, ao contrário, ser verdadeira vida aquela que começa com a morte?
[...]
Viver para o corpo (como faz a maior parte dos homens) significa viver para aquilo que está destinado a morrer; viver para a alma significa, ao contrário, viver para aquilo que está destinado a viver sempre, significa viver purificando a alma por meio de um progressivo desapego do corpóreo.
Se, nesta vida, o justo é vítima das opressões dos injustos, ao ponto de ser impunemente vítima de bofetadas, pois bem, ele sofre no corpo e pode, em caso extremo, perder o corpo; mas, perdendo o corpo, perde o que é mortal, ao passo que salva a alma para a eternidade.

Alguma semelhança com uma certa religião? Sim sim, Platão é um gênio mesmo, e preconizou inúmeras formas de pensar tão repetidas através dos séculos. Mas não saiam por aí querendo fundar uma Igreja Platônica da Alma Eterna! A alma está inserida na metafísica platônica e é coerente com sua doutrina do mundo supra-sensível, sendo um dos fundamentos racionais de sua teoria filosófica. Não é somente uma questão de fé, pois, embora aqui, a destaquemos simplesmente na sua componente místico-religiosa, restam ainda duas componentes, uma política e uma metafísica, como esclarece Reale:

“A existência de uma alma imortal, que unicamente pode dar sentido à visão da vida que descrevemos, não permanece mais mera crença nem somente fé e esperança, mas é racionalmente demonstrada. No orfismo tratava-se de uma simples doutrina misteriosófica; nos pré-socráticos que tinham aceitado a visão órfica, era um pressuposto em contraste com seus princípios físicos; em Platão, ao contrário, está fundamentada e apoiada perfeitamente sobre a metafísica, isto é, sobre a doutrina do supra-sensível, da qual se torna como que um corolário: a alma é a dimensão inteligível e imaterial do homem, e eterna como é eterno o inteligível e imaterial.”

Referência: Reale, G. (1994) História da Filosofia Antiga. São Paulo: Loyola

Era o fundamento filosófico que eu precisava! Estou doando todos os meus incontáveis bens materiais, façam fila... Adeus, pois uma vida ascética me aguarda. Embora perecível e destinado a morrer, foi um prazer.

1 Comments:

At sexta-feira, janeiro 02, 2009, Blogger Psychoze said...

hehehe

E não é que me comoveu!!!

 

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A verdade dói, mas quem sabe eu ñ sou masoquista? Diz aí:

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