Escravos do Mundo Livre

Esteta ou Asceta? Nada disso, no fundo: Divagações de um pateta...

sábado, 9 de junho de 2007

CADA UM SABE A DOR E A DELÍCIA DE SER O QUE É

Já me sinto melhor. Nem todo mundo nasce Mozart, Picasso, Marlon Brando, ou Machado. Nasci Eu, e como diz Caetano, cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é. Levo o leve e o love, o peso e o preço da quimera encrustada na cabeça. Não conquisto, não desisto. É febre, é fogo, é fato, é foda. Não estou só, não sou tradutor, mas entendo à minha maneira a língua secreta dos espelhos. Borges e Baudelaire me ajudam a entender. Consolo? Alívio? Mentiras? Talvez liberdade... A dor dói assim:

Natureza, feiticeira sem piedade, rival sempre vitoriosa, deixa-me! Cessa de provocar os meus desejos e o meu orgulho! O estudo da beleza é um duelo em que o artista grita de pavor antes de ser vencido. (O confiteor do artista, do livro O Spleen de Paris de Charles Baudelaire)


O louco e a Vênus

Dia admirável! O vasto parque desfalece sob o olhar abrasante do Sol, como a juventude sob o império do Amor. O êxtase universal das coisas não se manifesta por nenhum bulício; as próprias águas estão como adormecidas. Bem diversa das festas humanas - reina aqui uma orgia silenciosa. Dir-se-ia que uma luz cada vez mais intensa faz brotar dos objetos cintilações cada vez mais vívidas, que as flores excitadas ardem no desejo de rivalizar com o azul do céu pela energia das suas cores, e que o calor, tornando visíveis os perfumes, os faz subir para o Sol como foguetes. Entretanto, nesse universal regozijo, divisei um ser aflito. Aos pés de uma Vênus colossal, um desses bobos artificiais, um desses bufões voluntários encarregados de fazer rir os soberanos quando o Remorso ou o Tédio os atormenta, - envolvido num traje vistoso e ridículo, toucado de chifres e de guizos, ajoelhando ante o pedestal, ergue os olhos cheios de lágrimas para a imortal Divindade. E os seus olhos dizem: - "Eu sou o último e o mais solitário dos homens, privado do amor e da amizade, muito inferior, neste ponto, ao mais imperfeito dos animais. E todavia sei-me capaz, eu também, de compreender e sentir a Beleza imortal! Ah, Deusa! Tende piedade da minha tristeza e da minha loucura!". Mas a Vênus implacável olha não sei para quê de longínquo com os seus olhos de mármore.
Charles Baudelaire

0 Comments:

Postar um comentário

A verdade dói, mas quem sabe eu ñ sou masoquista? Diz aí:

Links to this post:

Criar um link

<< Home