Escravos do Mundo Livre

Esteta ou Asceta? Nada disso, no fundo: Divagações de um pateta...

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

A música e a morte

A morte seguiu pois pelo corredor até à primeira porta à direita de quem entra e por aí passou à sala de música, que outro nome não se vê que deva ser dado à divisão de uma casa onde se encontra um piano aberto e um violoncelo, um atril com as três peças da fantasia opus setenta e três de robert schumann, conforme a morte pôde ler graças a um candeeiro de iluminação pública cuja esmaecida luz alaranjada entrava pelas duas janelas, e também algumas pilhas de cadernos aqui e além, sem esquecer as altas estantes de livros onde a literatura tem todo o ar de conviver com a música na mais perfeita harmonia, que hoje é a ciência dos acordes depois de ter sido a filha de ares e afrodite.





Por um instante a morte soltou-se a si mesma, expandindo-se até às paredes, encheu o quarto todo e alongou-se como um fluido até à sala contígua, aí uma parte de si deteve-se a olhar o caderno que estava aberto sobre uma cadeira, era a suite número seis opus mil e doze em ré maior de johann sebastian bach composta em cöthen e não precisou de ter aprendido música para saber que ela havia sido escrita, como a nona sinfonia de beethoven, na tonalidade da alegria, da unidade entre os homens, da amizade e do amor. Então aconteceu algo nunca visto, algo não imaginável, a morte deixou-se cair de joelhos, era toda ela, agora, um corpo refeito, por isso é que tinha joelhos, e pernas, e pés, e braços, e mãos, e uma cara que entre as mãos se escondia, e uns ombros que tremiam não se sabe porquê, chorar não será, não se pode pedir tanto a quem sempre deixa um rasto de lágrimas por onde passa, mas nenhuma delas que seja sua. Assim como estava, nem visível, nem invisível, nem esqueleto, nem mulher, levantou-se do chão como um sopro e entrou no quarto. O homem não se tinha mexido. A morte pensou, Já não tenho nada que fazer aqui, vou-me embora, nem valia a pena ter vindo só para ver um homem e um cão a dormirem, talvez estejam a sonhar um com o outro, o homem com o cão, o cão com o homem, o cão a sonhar que já é manhã e que está a pousar a cabeça ao lado da cabeça do homem, o homem a sonhar que já é manhã e que o seu braço esquerdo cinge o corpo quente e macio do cão e o aperta contra o peito. Ao lado do guarda-roupa encostado a porta que daria acesso ao corredor está um sofá pequeno onde a morte se foi sentar. Não o havia decidido, mas foi-se sentar ali, naquele canto, talvez por se ter lembrado do frio que a esta hora fazia na sala subterrânea dos arquivos. Tem os olhos à altura da cabeça do homem, distingue-lhe o perfil nitidamente desenhado sobre o fundo de vaga luminosidade laranja que entra pela janela e repete consigo mesma que não há nenhum motivo razoável para que continue ali, mas imediatamente argumenta que sim, que há um motivo, e forte, porque esta é a única casa da cidade, do país, do mundo inteiro, em que existe uma pessoa que está a infringir a mais severa das leis da natureza, essa que tanto impõe a vida como a morte, que não te perguntou se querias viver, que não te perguntará se queres morrer.



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A verdade dói, mas quem sabe eu ñ sou masoquista? Diz aí:

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